Como Murray e Kerber prosperaram no tênis em uma época de lendas

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Como Murray e Kerber prosperaram no tênis em uma época de lendas
Kerber e Murray chegam ao Australian Open como líderes do ranking

Quando o mundo do tênis acordou de sua pequena hibernação em dezembro de 2016, ninguém tinha previsto os acontecimentos incríveis que haviam ocorrido no topo dos rankings masculino e feminino pouco antes, muito menos perceberam quão sísmicos eles foram. Novak Djokovic parecia impenetrável. Serena Williams, indomável. Ambos seguravam a posição de número um do mundo por anos a fio quando chegaram para a disputar o Australian Open do ano passado.

Djokovic buscava sua quinta taça em 11 Grand Slams. Williams, que quase tinha vencido os quatro Majors em 2015, chegou ao torneio com a esperança de vencer seu 22º Slam em simples, o que a faria igualar o recorde de Steffi Graf e cimentando sua reivindicação de melhor da história – se ela já não é.

Mas, nos 12 meses seguintes, o escocês Andy Murray e a alemã Angelique Kerber deram a todos lições sobre o que é preciso para prosperar, não apenas sobreviver, em um tempo de lendas.

A coisa impressionante é que nenhuma delas parece exótica. Para os dois jogadores, começa com talento e passa por uma incontrolável ética de trabalho e aptidão física. Também leva você a ter um olhar crítico maior sobre você mesmo – mas compensando com uma autoconfiança audaciosa e determinada em que nunca é tarde para melhorar ou desafiar seus críticos. Requer entender que buscar a excelência no dia a dia é o que leva ao sucesso maior.

Isso tudo são coisas de livros. Mas quando tudo vem junto, leva a resultados memoráveis.

É como Murray explicou para a imprensa em Wimbledon. “Antes, quando eu ganhei aqui [pela primeira vez em 2013], eu estava genuinamente motivado apenas, realmente, pelos Slams. Acho que meus resultados para os outros torneios mostram isso, enquanto agora eu me sinto muito mais motivado pelo ano todo e para todos os eventos. Antes, talvez algumas semanas antes do US Open, minha mente já estava em Nova York. Não estava pensando naquela semana, talvez em Cincinnati ou em algo parecido. Eu estava distraído. Agora eu me sinto diferente em relação a isso durante a temporada.”

E ele mostrou.

Com o Big Four no tênis masculino desmoronando em desordem em torno de Murray em maio do ano passado – quando Roger Federer e Rafael Nadal já estavam atrapalhados por lesões -, Murray perdeu para a Djokovic a final de Roland Garros. Com a vitória, Djokovic se tornou o primeiro homem em 48 anos a ter todos os quatro Slams simultaneamente. Era também sua 11ª vitória nos últimos 12 duelos contra Djokovic.

No entanto, Murray não desanimou.

“A razão para Novak me vencer várias vezes recentemente é que ele tem sido o melhor tenista”, afirmou ao The Guardian à época. “Mas se eu jogar com ele amanhã, é como o jogo de roleta. As pessoas pensam ‘teve cinco vermelhos seguidos'; logo, precisa ser preto na próxima. Mas a roleta não sabe o que aconteceu antes.”

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Murray acabou vencendo em Wimbledon logo após o retorno de Ivan Lendl como seu treinador, enquanto Djokovic perdeu nas primeiras rodadas.

Então, antes mesmo de deixar o All-England Club, Murray fez algo corajoso. Ele anunciou publicamente que estava em busca da primeira posição do ranking – e então ele conseguiu, com uma sequência de fim de temporada implacável em que conquistou cinco títulos e o fez passar como um foguete por Djokovic, um nêmesis de longa data que remonta às suas carreiras como tenistas juvenis.

Foi como um fim de um livro em um ano que começou com Murray brincando de maneira impassível. “Eu sinto que já estive aqui antes”, disse, após perder pela quarta vez na final na Austrália para Djokovic.

No final do ano, quando superou Djokovic para vencer o ATP Finals e manter a liderança do ranking, Murray chegou a 24 vitórias consecutivas. Apesar da derrota no último final de semana em três sets no ATP de Doha, Murray segue 780 pontos à frente do sérvio.

Murray é o segundo jogador mais velho a chegar a ponta do ranking – John Newcombe conseguiu o feito aos 30 anos, em 1974.

E quanto a Kerber, 28, ela é a mais velha a estrear como primeira do ranking desde sempre, sendo três anos mais velha que Jennifer Capriati, antes a mais veterana ao chegar ao cume da lista da WTA em 2001.

Mas Kerber era de longe uma zebra maior do que Murray.

Até 2016, Kerber não tinha nenhuma final de Slam em suas 13 temporadas como profissional. Em 2016, ela chegou a três decisões e venceu duas.

Depois de tudo isso, ela foi sincera sobre precisar se ajustar à “altitude” em que está. Vencer Williams em três sets cintilantes no último Australian Open ou mais tarde ouvindo ela mesma se chamar de número um do mundo após vencer Karolina Pliskova na final do US Open “ainda soa como algo um pouco louco”, admitiu ela para a imprensa em setembro.

Sem surpresas. Kerber se tornou profissional aos 15 anos, mas até sua sexta temporada em 2009, ela só havia vencido três partidas em chaves principais de torneios na WTA. Ela teve também 11 derrotas em estreias de torneios em 2011. Mas mais tarde, naquele mesmo ano, – meio que do nada – ela começou o US Open como 92ª do ranking e mesmo assim chegou à semifinal, sendo derrotada apenas por Samantha Stosur, então 10ª do mundo.

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A alemã sempre foi considerada talentosa. Mas em meio a grandes picos e a um retorno temporário ao abismo mesmo após vencer o Australian Open, Kerber acha que chegou no ponto que é similar entre o rápido gosto de glória que teve em 2011 e sua corrida mais equilibrada em 2016.

Ela acredita que foi o “efeito dominó” que a empurrou para uma grande desempenho. Agora ela sabe “eu posso correr o dia todo”, o que a deixou jogar de maneira mais agressiva e que genuinamente lhe deu confiança para ir para quebras mesmo nos momentos maiores em vez de ser alguém do contra-ataque e que evita correr riscos.

Soa simples, até mesmo sem destaque. Mas para Kerber fazê-lo não era. Depois de vencer Williams no Australian Open, ela regrediu e perdeu cinco vezes seguidas, incluindo sua primeira partida em Roland Garros. Foi um tom de 2011 novamente. Mas, assim como Murray, Kerber não “embelezou” a razão.

Estava em sua cabeça, admitiu ela.

“Com certeza, a pressão é um pouco maior, não menor, porque eu acho que todos estão esperando sucesso agora que eu ganhei”, afirmou Kerber aos jornalistas em novembro, durante o WTA Finals. “Depois de perder [em Roland Garros], eu tinha muita pressão sobre os meus ombros, e disse para mim mesma: ‘OK, tente aproveitar agora e não se sinta tão pressionada’. Minha mentalidade mudou um pouco.”

Olhe agora. O longo caminho que Murray e Keber pegaram até o sucesso não os estigmatiza mais. Os dignifica. Estampam os dois como muito especiais.

Os dois (mas especialmente Murray, que talvez esteja na melhor era da história do tênis masculino) ignoraram o tradicional pensamento de que os tenistas à frente deles eram bons demais para serem superados. Eles ignoraram as próprias falhas e acreditaram que o sucesso estava na próxima esquina.

Outra parte incrível sobre a explosão tardia das carreiras de Murray e Kerber é que ambos dizem que realmente foram capazes de saborear a enormidade e a maravilha de seus avanços.

“Todos os sonhos se tornaram realidade neste ano”, disse Kerber em novembro.

E Murray?

“Às vezes, eu ainda não consigo acreditar.”

*Tradução de Guilherme Nagamine. Clique aqui para ler a matéria original (em inglês). 

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